Um clone do Photoshop criado com inteligência artificial e distribuído de graça virou um dos projetos mais comentados entre programadores nas últimas semanas. O PhotoCraft faz parte do ArtCraft, um pacote de aplicativos de código aberto que imita programas da Adobe, como Lightroom, Premiere e Illustrator, e também de outras empresas. O fundador do projeto, o desenvolvedor Brandon Thomas, afirma ter usado o modelo Claude Opus 5.5, da Anthropic, para reconstruir os programas do zero, depois de se irritar com a multa de cancelamento das assinaturas da Adobe. O caso, relatado pelo Engadget, abriu um debate sobre direitos autorais, pirataria e o futuro do software por assinatura.
O fenômeno vai além de um único projeto. Ferramentas que usam IA para desmontar e recriar programas se espalharam nas últimas semanas, e uma delas soma mais de 425 mil estrelas no GitHub, a principal plataforma de hospedagem de código. Ao mesmo tempo, uma comunidade de engenharia reversa de videogames anunciou o próprio fim porque a IA tornou o trabalho fácil demais.
Como surgiu o clone do Photoshop
Os primeiros repositórios do pacote apareceram no GitHub em 30 de setembro de 2026. Dois dias depois, em um comentário no fórum Hacker News, Thomas apresentou o projeto. “Estou usando o Opus 5.5 para criar implementações de código aberto, 100% em Rust, de toda a suíte da Adobe”, escreveu, numa lista que trazia equivalentes do Photoshop, do Illustrator, do Premiere, do Lightroom, do Acrobat Pro, do After Effects e do InDesign. A motivação aparece na mesma mensagem: ele conta ter sido pego pela “taxa de cancelamento” da Adobe “vezes demais” e chama a cobrança de “padrão obscuro”, termo usado para práticas que dificultam decisões do consumidor.
Desde então, o projeto cresceu. O site do ArtCraft lista 16 aplicativos gratuitos para macOS, Windows e Linux, “sem assinatura”. Os repositórios, publicados sob a licença Apache 2.0, incluem agora versões inspiradas em Microsoft Word, Excel e PowerPoint, no AutoCAD e no Pro Tools. O repositório do PhotoCraft passava de 76 mil estrelas nesta terça-feira (3), indicador de interesse dos desenvolvedores na plataforma.
O ponto central da defesa do projeto é o conceito de “sala limpa” (clean room). Nesse método, um programa é recriado a partir do comportamento observado e de documentação pública, sem copiar o código original. A descrição do PhotoCraft afirma que ele foi “implementado apenas a partir de especificações públicas e comportamento observado”, sem “código, shaders ou recursos proprietários”. Segundo o Engadget, a equipe do ArtCraft diz que não usou nenhuma linha de código da Adobe.
O que o PhotoCraft faz e onde ele falha
O jornalista Steve Dent, do Engadget, testou o programa e disse ter se surpreendido. Segundo ele, o PhotoCraft não tem recursos de IA nem funções avançadas, mas faz “quase tudo” de que ele precisa, como redimensionar, aplicar máscaras e ajustar cores. Como menus e controles são praticamente idênticos aos do Photoshop, ele conseguiu usar o aplicativo sem passar por uma curva de aprendizado. A página do projeto reforça a proposta: “Se você conhece o Photoshop, já conhece o PhotoCraft”.
Os problemas, porém, são concretos, e o próprio repositório classifica o software como “alfa inicial”, ou seja, uma versão ainda instável. Usuários relataram falhas graves, como apagar imagens e mesclar camadas sozinho, de acordo com o Engadget. Há também uma divergência sobre o formato PSD, o arquivo nativo do Photoshop: no teste do Engadget, o programa não abriu esses arquivos, enquanto a descrição atual do projeto afirma suporte a PSD com camadas, desenvolvido a partir da especificação pública da Adobe. Não foi possível confirmar se a função chegou depois do teste ou se funciona apenas em parte dos casos.
A recepção também se dividiu. Num comentário no Reddit, citado pelo Engadget, um programador que já trabalhou com leitores de arquivos do Photoshop disse que o projeto parecia “excepcionalmente bem executado”. No X, um crítico previu que o código ficará “impossível de manter em poucos meses”, e outro chamou o programa de “lixo feito por IA” que infringe marcas e direitos autorais da Adobe.

Engenharia reversa ao alcance de qualquer um
Se o ArtCraft depende de programadores experientes, outras ferramentas prometem automatizar o processo. A mais popular é o REA (sigla em inglês para “faça engenharia reversa de qualquer coisa”), que, segundo sua página no GitHub, usa agentes de IA para analisar programas “do comportamento do aplicativo até os binários nativos”, isto é, os arquivos já compilados que o computador executa. Em 20 de outubro, o projeto tinha 346 mil estrelas e 87 mil cópias derivadas, segundo o Engadget. Nesta terça (3), o repositório do REA já passava de 425 mil estrelas e 106 mil cópias.
O uso vai do computador aos aparelhos da casa. O Engadget reúne relatos de pessoas que recriaram o software de TVs, geladeiras, instrumentos musicais e porta-retratos digitais, além de jogos antigos inteiros, como Metroid Prime. É uma extensão do chamado vibe coding, em que a pessoa descreve o que quer e a IA escreve o código, tendência que também aparece em ferramentas para criar sites e jogos sem programar.
O efeito colateral já chegou a comunidades tradicionais. Em outubro, o site decomp.dev, dedicado à reconstrução manual do código de videogames, anunciou que vai encerrar as atividades, como noticiou o 404 Media. O administrador, conhecido como Encounter, explicou que o trabalho levava anos para um jogo de tamanho médio e que modelos recentes de IA aceleraram o processo de forma significativa. “O aspecto comunitário da descompilação foi quebrado”, escreveu.
É legal clonar um programa?
A questão jurídica está longe de resolvida. Os termos de uso da Adobe têm uma seção específica, a de número 17, que trata de “engenharia reversa” e proíbe esse tipo de prática com seus programas. Além disso, mesmo sem copiar código, um clone pode esbarrar em marcas registradas e patentes, ponto levantado pelo Engadget. A reportagem do site americano não traz nenhuma resposta da Adobe ao ArtCraft.
No Brasil, a Lei do Software (Lei nº 9.609/1998) protege programas de computador como obras literárias, mas diz que não há ofensa aos direitos do titular quando a semelhança entre dois programas ocorre “por força das características funcionais de sua aplicação”. A regra mostra que imitar a função de um software não é automaticamente ilegal. Ainda assim, aplicá-la a um caso concreto, como copiar menus, atalhos e aparência de forma quase idêntica, depende de análise jurídica e, eventualmente, de decisão judicial.
O que muda para quem paga a Adobe no Brasil
A cobrança que motivou Thomas também existe por aqui, embora em percentual menor. Pelos termos de assinatura da Adobe para o Brasil, quem contrata o plano anual com pagamento mensal da Creative Cloud recebe o valor total de volta se cancelar em até 14 dias. Depois desse prazo, a empresa cobra uma parcela única de 20% das obrigações contratuais restantes. Nos Estados Unidos, a mesma modalidade prevê cobrança de 50% do valor restante do contrato.
Para o usuário comum, a recomendação é cautela. Os aplicativos do ArtCraft são gratuitos e podem ser baixados, mas o próprio projeto os trata como versões iniciais, e o Engadget relata erros que podem destruir arquivos. Quem depende de edição de imagens no trabalho tem há anos alternativas gratuitas e mais maduras, como GIMP, Darktable e DaVinci Resolve. A diferença deste clone do Photoshop está em imitar a interface da Adobe, o que reduz o esforço de quem já está acostumado ao Photoshop.
O que acontece agora
O caso mostra como a inteligência artificial encurtou o caminho entre uma ideia e um programa funcional. Um trabalho que antes exigia equipes inteiras de engenheiros agora pode ser tentado por poucas pessoas, o que pressiona empresas que cobram caro por assinaturas. Ao mesmo tempo, cresce o risco de softwares instáveis e de disputas judiciais. Os próximos sinais a observar são a maturidade dos clones, uma possível resposta da Adobe e a forma como tribunais vão tratar programas recriados com IA a partir do comportamento de outros.
Fontes e referências
- Engadget — AI software clones are coming for big-name companies like Adobe
- Hacker News — Comentário de Brandon Thomas (usuário echelon) apresentando o projeto
- ArtCraft — Site oficial do projeto
- GitHub — Repositório do PhotoCraft
- GitHub — Repositório do REA (Reverse Engineer Anything)
- 404 Media — Video Game Reverse Engineering Community Shuts Down Because AI Has Made It Too Easy
- Adobe — Termos de assinatura e cancelamento (Brasil)
- Adobe — Termos de uso gerais
- Presidência da República — Lei nº 9.609/1998 (Lei do Software)
