Gastos com IA derrubam Alphabet, Amazon e Intel, e Nasdaq tem o pior dia desde junho

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A corrida das big techs para construir infraestrutura de inteligência artificial virou motivo de desconfiança em Wall Street. Os gastos com IA revelados nos balanços do terceiro trimestre derrubaram as ações de Alphabet, Amazon e Intel nesta semana e levaram o Nasdaq, índice que concentra as empresas de tecnologia, a cair 2,86% na sexta-feira (30), o pior dia desde junho. O recado dos investidores é que crescer já não basta: as empresas precisam mostrar quando o dinheiro aplicado em data centers e chips vai voltar em forma de lucro e de caixa.

O balanço da Alphabet abriu a sequência

Tudo começou na quarta-feira (28), quando a Alphabet, dona do Google, divulgou receita de US$ 127,6 bilhões no trimestre, alta de 25% em um ano, com o Google Cloud mais que dobrando de tamanho, para US$ 30,7 bilhões. O problema estava em outra linha do comunicado de resultados enviado à SEC, a autoridade do mercado de capitais dos Estados Unidos: a empresa aplicou US$ 51,4 bilhões em ativos fixos em três meses e terminou o período com fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,1 bilhões. Em termos simples, investiu em infraestrutura mais do que o negócio gerou de dinheiro. A busca, principal fonte de receita do grupo, cresceu 12%, abaixo dos 15% esperados pelos analistas, segundo a Fortune.

Na quinta-feira (29), as ações da Alphabet caíram 12,6% e a empresa perdeu cerca de meio trilhão de dólares em valor de mercado, segundo a CNN Brasil. A diretora financeira, Anat Ashkenazi, manteve a previsão de investimentos para 2026 entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões e avisou que a conta vai crescer. “Continuamos esperando que nosso capex aumente significativamente em 2027”, afirmou, de acordo com a CNBC. Capex é a sigla em inglês para os gastos de capital, como prédios, servidores e equipamentos.

Amazon e Intel ampliaram a queda

Depois do fechamento de quinta, foi a vez da Amazon. A empresa vendeu US$ 201,9 bilhões no trimestre, 12% a mais que um ano antes, e a AWS, sua divisão de computação em nuvem, cresceu 39%, para US$ 46 bilhões. O lucro por ação de US$ 1,89, porém, ficou abaixo dos US$ 1,96 projetados pelos analistas consultados pela LSEG, e as compras de imóveis e equipamentos chegaram a US$ 77,3 bilhões em três meses, mais que o dobro do mesmo período de 2025. No acumulado de 12 meses, o comunicado da Amazon registra saída de caixa livre de US$ 42,4 bilhões, e a companhia prevê cerca de US$ 220 bilhões em investimentos de capital em 2026.

Segundo a empresa, o aumento dos gastos com prédios e equipamentos reflete principalmente investimentos em inteligência artificial, numa companhia que já vinha apostando pesado em automação e ultrapassou a marca de 1 milhão de robôs. O presidente-executivo, Andy Jassy, defendeu a estratégia e projetou crescimento da AWS acima de 40% em 2027 e em 2028. As ações recuperaram boa parte da queda registrada antes da abertura e fecharam a sexta-feira em baixa de 1,4%.

A Intel teve o pior desempenho da semana. A fabricante de chips apresentou receita de US$ 16,5 bilhões no terceiro trimestre, alta de 21%, puxada por um salto de 78% na divisão de data center e IA. A previsão para o quarto trimestre, entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões, ficou abaixo dos US$ 17,1 bilhões esperados pelo mercado, e o lucro ajustado projetado, de US$ 0,25 por ação, ficou longe dos US$ 0,43 do consenso da LSEG. “Vemos a desaceleração dos PCs continuando pelo menos durante o primeiro semestre do próximo ano”, afirmou o diretor financeiro, David Zinsner, no comunicado de resultados da Intel.

As ações da Intel despencaram 28,6% na sexta-feira, a pior queda diária desde 1974, segundo a CNN. O tombo arrastou o setor inteiro: o índice de semicondutores da Filadélfia perdeu mais de 7%, e papéis como AMD, HP e Dell caíram cerca de 10%. Na prática, o mercado passou a punir no mesmo dia quem gasta muito com IA e quem fornece os componentes para essa expansão.

Wall Street teve o pior dia desde junho

Na sexta-feira, o S&P 500 recuou 1,82%, para 7.580 pontos, o Dow Jones caiu 1,09%, para 51.770 pontos, e o Nasdaq fechou em 25.437 pontos, de acordo com a Reuters. Com isso, o Nasdaq encerrou outubro com o pior desempenho mensal desde março de 2025, segundo a CNN. Os investidores trocaram ações por títulos do Tesouro americano, e o rendimento do papel de 10 anos caiu para 4,93%. O índice global MSCI recuou 1,5%, e o bitcoin perdeu 2,5% num mercado de criptomoedas que ainda digeria o ataque hacker que desviou bilhões da Binance.

A Ásia já havia sentido o golpe horas antes. Ainda sob o impacto da Alphabet, o Kospi, da Coreia do Sul, caiu 3,48% na sexta, o Nikkei, do Japão, recuou 2,12%, e o Taiex, de Taiwan, perdeu 2,49%, segundo a CNN Brasil. A fabricante sul-coreana de memórias SK Hynix teve queda de 7%, e a bolsa coreana chegou a suspender temporariamente as negociações depois que os contratos futuros do índice recuaram mais de 5%.

Por que os gastos com IA preocupam tanto

A preocupação vai além de uma empresa isolada. Levantamento publicado pelo site financeiro 24/7 Wall St. mostra que Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle somaram US$ 556,9 bilhões em investimentos de capital nos nove primeiros meses de 2026, a maior parte em data centers de IA. O valor superou os US$ 542,9 bilhões que as cinco geraram com suas operações, e o fluxo de caixa livre do grupo passou de um saldo positivo de US$ 143,5 bilhões, um ano antes, para um déficit de US$ 14 bilhões. A fatia do caixa devolvida aos acionistas em dividendos e recompras de ações caiu de 27,4% para 9,3%.

Parte da conta já está sendo paga com dívida: só no terceiro trimestre, a Alphabet captou US$ 28,7 bilhões líquidos com a emissão de títulos, segundo o próprio comunicado. A Meta, que divulgou seus números na semana anterior, elevou o piso da previsão de investimentos de 2026 para US$ 135 bilhões, num intervalo que vai até US$ 145 bilhões, e também viu as ações caírem depois de registrar fluxo de caixa livre negativo, de acordo com a CNBC. A Microsoft destoou do grupo: com o Azure crescendo 48%, ainda gera caixa suficiente para cobrir os gastos e reduziu a previsão anual de investimentos de US$ 175 bilhões para US$ 170 bilhões. Segundo a diretora financeira, Amy Hood, atrasos de fornecedores externos de chips empurraram parte da capacidade para o primeiro semestre de 2027.

Vista aérea de um grande galpão de data center cercado por equipamentos de refrigeração, em área rural ao pôr do sol
Data center do Google em Council Bluffs, nos EUA: a Alphabet investiu US$ 51,4 bilhões em infraestrutura só no terceiro trimestre. Foto: Chad Davis / CC BY 2.0

O que dizem os analistas

Para Gene Goldman, diretor de investimentos da Cetera, o pregão de sexta foi um “show de horrores”, e os gastos com IA levantam dúvidas sobre se os retornos vão justificar o desembolso, segundo a Reuters. Sahak Manuelian, diretor-gerente da Wedbush Securities, lembrou que as ações de tecnologia vinham de altas muito fortes: “Quando você tem movimentos quase parabólicos, a queda é muito feia”. Já Antonio Di Giacomo, analista sênior da XS.com, disse à CNN Brasil que os resultados “precisam mostrar avanços em rentabilidade e geração de caixa”.

Nem todos enxergam só problemas. Dan Ives, da Yorkville Ives, celebrou o resultado do Google Cloud como “o número que estávamos esperando”, enquanto David Wagner, da Aptus Capital Advisors, resumiu a contradição do balanço da Alphabet ao dizer que a nuvem foi bem, mas “o problema é todo o resto”, segundo a Fortune. A divisão de opiniões indica que o mercado passou a separar as empresas que já convertem IA em receita das que ainda não mostraram como vão recuperar o investimento.

O que muda para o leitor brasileiro

Quem investe nessas empresas a partir do Brasil, por meio de fundos ou de BDRs negociados na B3, sentiu a queda diretamente. Para o usuário comum, nada muda de imediato nos serviços de inteligência artificial oferecidos por Google, Amazon, Microsoft ou Meta. Nenhuma delas sinalizou recuo na estratégia: o ajuste da Microsoft se deve a atrasos de fornecedores, e a Alphabet já avisou que vai gastar ainda mais em 2027. A dúvida do mercado, por enquanto, é sobre o prazo do retorno, e não sobre a continuidade da expansão.

O que acontece agora

Os próximos sinais virão com os balanços do quarto trimestre, no início de 2027. A Amazon projeta vendas entre US$ 240 bilhões e US$ 247 bilhões nos três últimos meses do ano, a Intel espera mais um semestre fraco no mercado de computadores, e a Alphabet prometeu detalhar os investimentos de 2027 na próxima divulgação. Até lá, a pergunta que derrubou as ações nesta semana continua aberta: o mercado já não questiona se a IA vai crescer, mas quando os gastos com IA vão aparecer no caixa.

Fontes e referências

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