Um ataque hacker na Binance, corretora de criptomoedas com 335 milhões de usuários cadastrados, desviou cerca de US$ 6,3 bilhões na tarde de quinta-feira (29), em um caso que empresas de análise de blockchain já tratam como o maior roubo de criptoativos já registrado. A maior parte dos recursos saiu das carteiras da empresa em cerca de 20 minutos, espalhada por dez blockchains diferentes. A Binance suspendeu saques e depósitos, afirmou que vai cobrir todas as perdas com recursos próprios e disse que o dinheiro dos clientes está seguro. As principais empresas de rastreamento apontam um grupo de hackers ligado à Coreia do Norte como responsável.
Como aconteceu o ataque hacker na Binance
Segundo a análise da TRM Labs, empresa especializada em investigação de transações com criptomoedas, os primeiros desvios começaram às 20h05 no horário universal (17h05 em Brasília), pela rede XRP Ledger. Em seguida, o invasor esvaziou carteiras da Binance no Ethereum, no Bitcoin, na Tron, na Solana e em outras cinco redes. A TRM calcula o prejuízo em US$ 6,36 bilhões, considerando o preço de cada ativo no momento da retirada, enquanto a Chainalysis, outra empresa do setor, fala em cerca de US$ 6,4 bilhões. A própria Binance estimou o impacto em aproximadamente US$ 6,3 bilhões.
O alvo foram as chamadas hot wallets, carteiras conectadas à internet que as corretoras usam para processar saques do dia a dia. Entre os ativos levados estão 18.270 bitcoins, avaliados em cerca de US$ 1,47 bilhão, mais de 200 mil ethers e bilhões de dólares em stablecoins, criptomoedas atreladas ao dólar, como USDT e USDC. Só no Ethereum, segundo a TRM, uma única transação com 50 autorizações preparadas com antecedência transformou uma carteira da Binance em um “aspirador” que enviou tudo para o invasor em pouco mais de três minutos.
O que a Binance diz sobre a causa
Em publicação no X na noite de quinta, a Binance informou que a investigação inicial indica o comprometimento do laptop de um engenheiro de DevOps, profissional que cuida da infraestrutura de sistemas. Esse acesso teria permitido ao invasor entrar em um ambiente interno de serviços e enviar ordens de saque não autorizadas. Richard Teng, um dos dois executivos-chefes da empresa, escreveu no X, segundo a Reuters, que se tratou de um ataque complexo, feito por mais de uma pessoa, que envolveu o laptop invadido e um software malicioso criado para apagar os próprios rastros. A causa completa ainda não foi publicada, e a TRM avalia que o caminho mais provável foi o comprometimento da infraestrutura que assina as transações das carteiras.
Coreia do Norte é a principal suspeita
A TRM Labs atribui o roubo, com “alta confiança”, ao TraderTraitor, unidade de hackers de elite da Coreia do Norte. É o mesmo grupo que o FBI responsabilizou pelo ataque de US$ 1,5 bilhão à corretora Bybit, em fevereiro de 2025, até então o maior roubo de criptomoedas registrado. A Chainalysis chegou à mesma conclusão e aponta como principal evidência o fato de parte do dinheiro da Binance ter se misturado, na blockchain, a recursos roubados no mês passado da corretora Bitget, caso já atribuído aos norte-coreanos.
Nenhum governo confirmou formalmente a autoria até agora, e a Coreia do Norte já negou acusações semelhantes no passado. O FBI informou que acompanha o caso e trabalha com parceiros públicos e privados para entender o alcance do ataque, e o Serviço Secreto dos Estados Unidos disse que atua para identificar, congelar e recuperar os valores. Para Ari Redbord, executivo da TRM, roubos dessa escala financiam a proliferação de armas, o que transforma o caso em uma questão de segurança nacional, e não apenas em um crime com criptomoedas.

O maior roubo de criptomoedas da história?
O valor desviado no ataque hacker na Binance equivale a cerca de quatro vezes o golpe contra a Bybit, segundo a TRM, e a Chainalysis o classifica como o maior roubo da história das criptomoedas. A empresa britânica de análise Elliptic foi além e disse à Reuters que o incidente é “quase certamente o maior roubo conhecido de qualquer tipo”. Como os números ainda são preliminares e parte dos recursos foi congelada, o prejuízo final pode mudar nos próximos dias.
Parte do dinheiro, de fato, não chegou longe. Emissoras de stablecoins conseguem bloquear moedas em endereços suspeitos, e a Tether congelou quase US$ 1,57 bilhão, enquanto a Circle travou mais de US$ 800 milhões, de acordo com a Reuters. Ripple, World Liberty Financial e o conselho de segurança da rede Arbitrum também bloquearam valores menores. Mesmo assim, a TRM estima que o invasor ainda controla cerca de US$ 2,4 bilhões em ether e bitcoin, ativos que não podem ser congelados por um emissor central.
O que muda para os clientes da Binance
A Binance suspendeu temporariamente depósitos e saques para concluir verificações de segurança e, segundo a CNN, espera retomar os saques até a manhã de domingo. A empresa também reservou cerca de US$ 6,34 bilhões do próprio caixa para cobrir as perdas, de acordo com a Reuters, e afirmou que “os fundos dos usuários estão seguros”. Em outra publicação, Teng escreveu que a equipe trabalha sem parar para resolver o problema e deixar os usuários sem prejuízo.
Os comunicados consultados não trazem orientações específicas para o Brasil. Para quem tem saldo na corretora, a recomendação mais segura é acompanhar apenas os canais oficiais da empresa e desconfiar de mensagens que prometem reembolso, liberação antecipada de saques ou pedem senhas e códigos de verificação. Ferramentas de proteção também ajudam, e o MUNDOTOPIA já mostrou como o Google usa inteligência artificial para detectar golpes em mensagens no Android.
Mercado reage e fundador defende a empresa
O mercado sentiu o impacto na sexta-feira (30). O bitcoin caiu para US$ 76.368, a mínima em seis semanas, e o ether recuou mais de 3%, segundo a Reuters, enquanto o BNB, token ligado à própria Binance, perdeu 6,74% em 24 horas. Changpeng Zhao, cofundador da corretora, disse no X que espera que os fundos dos usuários sejam totalmente cobertos. Zhao deixou o comando da empresa em 2023, depois de se declarar culpado de violar leis contra lavagem de dinheiro nos Estados Unidos, e recebeu perdão do presidente Donald Trump em outubro de 2025, de acordo com a CNN. Ele continua como maior acionista da Binance.
Próximos passos
A empresa prometeu divulgar mais detalhes sobre a investigação, e a retomada dos saques depois do ataque hacker na Binance deve servir como primeiro teste da promessa de cobrir todas as perdas. Ao mesmo tempo, a TRM espera que os hackers tentem lavar o restante do dinheiro por meio de pontes entre blockchains, serviços de troca e corretores de balcão, o que deve mobilizar empresas de rastreamento e autoridades nas próximas semanas.
O caso também reforça um alerta que vale para empresas de todos os tamanhos: segundo a investigação inicial da Binance, a porta de entrada de um ataque bilionário foi o computador de um funcionário. Episódios recentes cobertos pelo MUNDOTOPIA, como a invasão no GitHub da Meta e o vírus Hirudo, que imita aplicativos bancários, mostram como credenciais e dispositivos pessoais seguem como alvos preferidos dos criminosos.
Fontes e referências
- TRM Labs — North Korea Steals USD 6.36 Billion From Binance in the Largest Hack in History
- Chainalysis — The $6.4 Billion Binance Hack: Tracing the North Korea Link
- Reuters (via Yahoo Finance) — Hackers steal $6.3 billion from Binance in record heist blamed on North Korea
- CNN (via Yahoo Finance) — World’s largest crypto exchange hit by suspected North Korean hack in world’s largest heist
- Fortune — The $6.3 billion Binance hack: What we know so far about the biggest crypto heist in history
