Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, disse preferir que a sociedade receba “um trilhão de IAs com inteligência ligeiramente sobre-humana” a uma única IA “com QI de 1 trilhão”. A declaração foi feita no podcast Cheeky Pint, apresentado por John Collison, cofundador da Stripe, e publicado em 29 de outubro de 2026 com o título “Why Sam Altman is against a single superintelligence”. A posição de Sam Altman sobre superinteligência aparece em meio a uma conversa que passou pela falha crítica descoberta no PHP, pelo custo das provas matemáticas da empresa e pelo futuro dos agentes pessoais.
A entrevista chega numa semana movimentada para a OpenAI. Em poucos dias, a empresa associou um de seus modelos à descoberta de falhas graves no PHP, linguagem usada em servidores web, e anunciou novos resultados em matemática e física. Altman usou a conversa para defender a direção da empresa, mas também admitiu dúvidas sobre segurança e sobre o efeito dessa tecnologia na vida dos cientistas.
Muitas IAs em vez de uma só
O ponto central da conversa surgiu quando Collison resumiu a visão do executivo: a inteligência artificial não deveria caminhar numa direção centralizada. Altman concordou e disse que a ideia de muitos sistemas convivendo preserva algo que faltaria num mundo com “um único cérebro”, ou seja, valores de “pluralismo e democracia”. Ele contou que andava triste com a impressão de que a IA se afastaria disso, e que agora se anima com a hipótese de vários sistemas distribuídos pela sociedade.
Altman foi além e disse que a humanidade provavelmente terá de “concordar com alguns limites” sobre o quanto um único modelo pode ficar inteligente. Segundo ele, se o progresso desacelerar, será por causa dessa decisão, e não por incapacidade das máquinas de fazer boas pesquisas. A fala é uma opinião do executivo, sem proposta concreta de regra ou de órgão responsável por definir esses limites.
Sobre como conter sistemas cada vez mais capazes, Altman disse que o isolamento em ambientes controlados, o chamado sandboxing, “funciona até certo ponto”, e que o monitoramento funciona um pouco além. Depois disso, seria preciso confiar com muita segurança de que os modelos estão alinhados aos interesses humanos, e ele próprio admitiu não saber como esse cenário termina. O tema da segurança em inteligência artificial já colocou a OpenAI e a Anthropic na mira de autoridades americanas.
A “semana do PHP” e o alerta sobre falhas
A conversa começou pelo episódio que Collison chamou de “semana do PHP”. Em 21 de outubro, o projeto PHP publicou um aviso de segurança sobre duas falhas críticas, registradas como CVE-2026-109618 e CVE-2026-109619, que podem permitir a execução remota de código por um atacante sem login. Segundo o aviso, correm risco todas as instalações de PHP que atendem requisições da web, e a correção está nas versões 8.5.12, 8.4.27, 8.3.36 e 8.2.35. O próprio projeto já havia classificado as duas falhas com nota 9,2 na escala de gravidade CVSS.
De acordo com o texto da OpenAI reproduzido pelo PPC Land, a empresa de segurança Calif encontrou uma das falhas usando o modelo GPT-5.6 Sol, dentro de uma iniciativa chamada Patch the Planet. A empresa Wiz também descobriu e relatou as duas falhas de forma independente. A OpenAI diz ainda ter reservado US$ 1 bilhão em acesso subsidiado ao Daybreak, por meio do programa Daybreak for Frontline Defenders, voltado a organizações com poucos recursos de segurança.
No podcast, Sam Altman disse que a empresa já sabia que os modelos estavam ficando bons em achar vulnerabilidades e que o mundo deve ter “muito mais falhas graves do que esperamos”. Ele afirmou que o primeiro dia da resposta ao caso foi melhor do que imaginava, mas que não queria “declarar vitória”. O executivo também apostou que a IA levará a um modelo completamente novo de construir sistemas e redes. Para quem mantém um site, o recado prático é atualizar o PHP, linguagem que roda por trás de plataformas como o WordPress.

Uma prova matemática de US$ 10 milhões
Sam Altman também falou sobre a prova ligada às equações de Navier-Stokes, que descrevem o movimento de fluidos. Segundo o executivo, a OpenAI deixou os gastos com matemática “saírem do controle por uma semana”, e o custo dessa prova ficou na ordem de US$ 10 milhões, “talvez um pouco mais”. Ele apostou que, um ano depois, seria possível refazer o mesmo trabalho por um centésimo do custo.
O resultado foi anunciado pela OpenAI em 8 de setembro e ainda é discutido. Segundo resumo do centro RITS da NYU Shanghai, cerca de 10 mil agentes de um modelo interno trabalharam por aproximadamente 88 horas. A prova trata de um fluido submetido a uma força externa, e a empresa diz que não pretende reivindicar o prêmio de US$ 1 milhão do Instituto Clay. A verificação por especialistas em dinâmica de fluidos segue em andamento, e o anúncio gerou uma disputa de crédito com os matemáticos Tristan Buckmaster e Levent Alpöge, que trabalhavam em resultados parecidos.
O executivo reconheceu o impacto disso sobre os pesquisadores humanos. Ele contou que quase não dormiu por duas noites seguidas e que sentiu “muito mais tristeza e melancolia” do que esperava, além da sensação de que “algo estava acabando”. Collison comparou o momento ao fim do uso de cavalos no trabalho na Irlanda dos anos 1950, uma história que ouviu do pai.
Chips, energia e o custo da computação
Boa parte da entrevista tratou de infraestrutura. Altman disse que a OpenAI “sempre quer mais capacidade de computação” e que a empresa fez um chip com ótimo desempenho em “unidades de inteligência por watt”. Ele também afirmou que robôs capazes de ajudar a construir data centers estão “ao alcance”. Sobre o mercado de memória, foi mais duro e disse que “a mão invisível está falhando agora”.
Na conta do executivo, o custo total de cinco anos de um gigawatt de capacidade gira em torno de US$ 70 bilhões, e a empresa ficaria “muito mais feliz” se esse número caísse para cerca de US$ 20 bilhões. Ele defendeu que os clientes cobrem dos modelos um desempenho dez vezes melhor a cada ano e disse acreditar que a energia precisa ficar mais barata. Para Altman, ainda há mais empresas usando IA de menos do que de mais.
O “momento Macintosh” dos agentes pessoais
Na parte final, a conversa chegou aos assistentes de inteligência artificial que agem em nome do usuário. Altman disse que esses agentes dependem de três coisas, inteligência, contexto e ferramentas, e que ainda falta a eles um “momento Macintosh”, aquele produto que torna a tecnologia simples para o grande público. Segundo ele, o mercado está a “poucas ideias” de algo realmente popular, e a forma final deve lembrar os produtos atuais, só que funcionando de verdade.
Sobre compras feitas por agentes, o executivo afirmou que escolhe a Amazon “10 em cada 10 vezes” e que a varejista estaria bem posicionada se o comércio passar a depender mais desses sistemas. Collison chamou o preenchimento de formulários na web de “trabalho falso”, e Altman respondeu que ficaria muito feliz em nunca mais fazer esse tipo de tarefa no computador. A visão contrasta com os alertas que a própria indústria faz sobre riscos de agentes que agem sozinhos.
O que a entrevista de Sam Altman revela sobre a OpenAI
A defesa de muitas IAs em vez de uma superinteligência única é a parte mais política da conversa, mas Altman não detalhou como esses limites seriam definidos nem quem os fiscalizaria. Os números citados por ele, como o custo da prova matemática e o gasto por gigawatt, são estimativas ditas pelo executivo durante a conversa, e não dados detalhados pela empresa. As descobertas em segurança e matemática também dependem, em boa parte, do relato da OpenAI e de verificações que ainda não terminaram.
Mesmo assim, a entrevista mostra as prioridades da empresa: mais computação, custos menores e agentes capazes de trabalhar em paralelo. Os próximos meses devem dizer se as provas matemáticas resistem à revisão de especialistas e se a onda de falhas encontradas por IA se confirma. Altman disse esperar aprender “muito” sobre o uso de IA na pesquisa nos próximos três meses.
Fontes e referências
- Cheeky Pint — Why Sam Altman is against a single superintelligence
- PHP — Security advisory: Critical remote code execution vulnerabilities, update now
- PPC Land — OpenAI says GPT-5.6 Sol found a PHP flaw before attackers did
- NYU Shanghai RITS — OpenAI Claims a Navier–Stokes Proof, Amid a Dispute Over Credit
- Al Jazeera — AI makes discoveries in mathematics, computer science, physics, OpenAI says
